Afinal, o que é realmente importante? Cada pessoa tem sua própria resposta a essa pergunta, mas considerem isto: caso o gelo que recobre a Groenlândia e a Antártida derreta, o nível médio do mar subirá em mais de 60 metros em poucos anos. O mar invadirá a terra firme em dezenas e até centenas de quilômetros, dependendo da região. Enormes porções dos continentes irão desaparecer, como o leste-sudeste dos EUA, as terras margeando o Golfo de Bengala, o norte-nordeste do Brasil (incluindo a calha do Rio Amazonas), a Rússia circumpolar e a parte da Europa que margeia o Mar do Norte e o Mar Báltico, entre outras. Países inteiros, como a Holanda, Bangladesh e muitas ilhas do Pacífico, desaparecerão completamente. Ademais, lembremos que a maioria da população da Terra habita as zonas costeiras. Do ponto de vista da biosfera, uma das piores conseqüências disso será a destruição dos mangues e dos recifes de corais, que são os grandes berçários do oceano. Isso significará muito menos comida disponível, por tempo indeterminado. A verdadeira má notícia que esse derretimento, hoje, é uma realidade científica inegável.
Enchentes, tempestades e secas. Derretimento do gelo polar, geleiras em retração, oceanos tornando-se ácidos. Cientistas dos campos da glaciologia, biologia, meteorologia, oceanografia e ecologia informam terem identificado, nos últimos 50 anos, uma elevação dramática em todos os indicadores de mudança climática: aumento das temperaturas médias anuais, eventos climáticos extremos, aumentos da concentração de CO2 (gás carbônico) e outros gases do efeito-estufa, e elevação do nível dos oceanos.
Os 10 anos mais quentes de todos os tempos estão compreendidos no período da História que começa em 1990. O mais quente de todos foi o de 2005. Talvez os intelectuais do futuro, a partir de um mundo bem mais quente e bem menos acolhedor, não consigam compreender como uma geração inteira pôde caminhar tão tranqüilamente para o desastre completo, destruindo o clima que permitiu à humanidade florescer durante os últimos 11 mil anos.
A imensa maioria dos cientistas e entidades monitoradoras do clima hoje concordam que ele realmente está mudando, que os humanos são um importante fator nessa mudança e que o tempo para agir se esgota rapidamente. Nas publicações populares, todavia, mais de metade das matérias, normalmente plantadas pelos grupos prejudicados pelas iniciativas contra o aquecimento global, colocam em dúvida o que os cientistas unanimemente têm como certeza. Muitos até já acham que é tarde demais para qualquer iniciativa e temem a não-linearidade dos processos naturais. Isso significa que situações aparentemente menos preocupantes podem, de um dia para o outro, sofrer reviravoltas súbitas e ficar totalmente fora de controle.
A Terra está ficando mais quente. Enquanto o aquecimento médio é pouco inferior a 1ºC, as regiões polares mostram aquecimento de 2 a 3ºC, devido a efeitos de retro-alimentação. Com o derretimento da neve branca, que antes refletia um pouco do calor de volta para a atmosfera (efeito albedo), superfícies escuras recém expostas absorvem calor e aceleram o derretimento de mais neve e gelo. A água que se infiltra pelo solo e pelas fendas no gelo age como lubrificante, ensejando maior facilidade no rachamento e movimentação do gelo.
Uma das piores conseqüências da destruição das geleiras é pouco conhecida do grande público. Acontece que, pelo mundo todo (especialmente na América do Sul e na Ásia), cerca de 40% da população mundial obtém sua água doce em mananciais originados do derretimento normal das geleiras continentais. O desaparecimento desse gelo colocará mais pressão sobre as outras fontes de água doce, já são consideradas insuficientes na maior parte do mundo, aprofundando ainda mais a crise.
O aumento de apenas 1ºC pode parecer pequeno. Todavia, historicamente, o gradiente térmico entre períodos mais quentes e eras glaciais foi de apenas 5 a 6ºC. Desde a última era glacial, houve uma lenta elevação da temperatura que demorou 5 mil anos para se completar, permitindo à vida se adaptar às mudanças. Estima-se, porém, que a humanidade poderá elevar a temperatura média do globo em 5 a 6ºC em apenas 150 anos, caso o uso de combustíveis fósseis não seja restringido.
A camada de gases do efeito-estufa existente em torno do globo é um subproduto da era industrial e de uma tecnologia anacrônica. Ainda que o metano seja o mais poderoso dos gases do efeito-estufa, é o CO2 que perfaz mais de 80% do volume. Sondagens no gelo mostram que as concentrações de CO2 estiveram estabilizadas no último milênio, ficando entre 275 e 285 ppm (partes por milhão). Agora, a concentração atingiu 370 ppm e continua subindo ano após ano. Outros gases responsáveis pelo efeito-estufa mostram a mesma elevação dramática, especialmente nos últimos 40-50 anos. Já estamos vivendo numa atmosfera que nenhum ser vivo tinha respirado no último milhão de anos.
A temperatura média da superfície dos oceanos, estendendo-se até várias centenas de metros, aumentou 0,5ºC, o que praticamente ocorreu nos últimos 40 anos. Os oceanos também se tornaram mais ácidos, devido à fixação do CO2 antropogênico, situação que não acontecia há mais de 20 milhões de anos. Hoje, os oceanos são o maior reservatório de CO2 existente. Isso explica, em parte, porque os efeitos do aquecimento global ainda não se manifestaram de maneira mais catastrófica. Todavia, a capacidade de armazenamento de CO2 pelos oceanos é limitada. No mais, devido à inércia térmica, acredita-se que os oceanos continuarão a esquentar pelos próximos 100 anos, com a conseqüente elevação do nível das praias, mesmo com o controle da emissão dos gases mais problemáticos.
Um dos efeitos mais nefastos do aquecimento do mar é que ele passa a dificultar a ressurgência, fenômeno em que a água fria e rica em nutrientes do fundo oceânico desloca-se para a superfície, trazendo o fitoplâncton, que é a base da cadeia alimentar marinha, assim como as plantas são a base da cadeia alimentar terrestre. O desaparecimento do fitoplâncton causa o desaparecimento do zooplâncton, que dele se alimenta. Por sua vez, o desaparecimento do zooplâncton causa o desaparecimento das aves e demais animais marinhos (das sardinhas às baleias).
O descontrole climático pode também levar a conseqüências sobre as quais a humanidade não terá qualquer controle. Entre elas, podem-se citar o desmantelamento e derretimento de enormes plataformas de gelo em ambos os pólos e a perturbação da circulação dos oceanos. O mecanismo circulatório dos oceanos é responsável por temperar o clima das latitudes mais altas. Veja-se, por exemplo, o caso da Corrente do Golfo, que mantém o clima da Europa Ocidental entre 5 e 10ºC abaixo do que seria sem ela. A Corrente do Golfo só se movimenta graças às águas frias e salgadas do Atlântico norte. Com o aumento da temperatura e o derretimento do gelo, o oceano torna-se mais quente e menos salgado, prejudicando a circulação das águas, podendo mesmo vir a inviabilizá-la totalmente. Sinais disso já vêm sendo identificados e estudados em todo o Atlântico norte. A Corrente do Golfo é apenas uma entre as muitas dezenas de correntes oceânicas espalhadas por todo o mundo e responsáveis pelo equilíbrio climático do planeta.
A cobertura gelada da Groenlândia está derretendo. Caso todo o gelo acumulado na ilha derreta, os oceanos devem subir por volta de sete metros. A questão é: em que ponto estará o limiar da irreversibilidade? Estudiosos acreditam que a catástrofe pode se efetivar em apenas algumas décadas. Uma vez detonado, o processo autoalimenta-se e não pode ser detido. O pior é que os humanos não são os únicos prejudicados com isso: como exemplo, observe-se que um número recorde de ursos polares vêm sendo encontrados mortos, por afogamento.
A situação da Antártida não é muito melhor. É o quinto maior continente e contém 90% da água doce do planeta. Se todo esse gelo derretesse, o mar subiria mais de 55 metros. Há 30 milhões de anos existe aquela camada de gelo. Observações recentes na Península Antártica mostram que 87% das geleiras da região estão em retração. Enormes plataformas de gelo desgrudam-se do continente e saem para o mar, à deriva. Isso acelera o derretimento das geleiras, principalmente graças ao sistema de rios de água líquida que existem sob a camada de gelo.
E as notícias ruins não param de chegar. Em agosto de 2005, uma revista informou que uma área enorme de permafrost (camada de solo permanentemente congelado) da Sibéria, do tamanho da França e Alemanha reunidas, começa a derreter e transformar-se em charco, o que não acontecia há 11 mil anos. A má notícia é que essa região contém estimadas 70 bilhões de toneladas de metano, um gás de efeito-estufa 20 vezes mais poderoso do que o CO2. Mesmo as melhores previsões indicam que, caso esse gás seja liberado para a atmosfera, o agravamento do efeito-estufa se dará num percentual entre 10 e 25%.
Enquanto isso os EUA, capitaneados por Bush e seus financiadores de campanha e defendido por seus cientistas de aluguel, negam enfaticamente que exista essa coisa chamada aquecimento global antropogênico. Os EUA, responsável pela emissão de 42% do CO2 da queima de combustíveis fósseis e de 34% das emissões combinadas de gases do efeito-estufa, não apenas permanecem à margem da discussão sobre a necessidade de estabilizar-se o clima, como também trabalham ativamente para impedir que o resto do mundo chegue a uma solução negociada. Para a administração Bush, o clima não é um problema ecológico ou humanitário mas, sim, uma questão militar, de como se manter à tona num mundo que naufraga literalmente.
É desanimador constatar que somos um barco dirigido por um capitão bêbado e louco. Nenhum esforço no sentido de diminuir o nível da mudança climática terá sucesso sem a ativa participação dos EUA. Resta continuar nadando contra a corrente e torcer para que a maior potência de todos os tempos seja contaminada por um pouco de discernimento e passe a agir racionalmente. De outra sorte, ver-nos-emos obrigados a repetir a saga de Noé.